Entenda toda a polêmica entre recife e belém na disputa pelo título de “capital do brega”
- Escrito por Gabriel Pacheco

- 30 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: há 6 dias

A música brega, expressão popular que atravessou décadas e fronteiras no Brasil, virou tema de uma disputa cultural e simbólica entre duas capitais históricas do gênero: Belém, no Pará, e Recife, em Pernambuco. A controvérsia ganhou intensidade em 2025, quando diferentes títulos de Capital Mundial do Brega a Capital Nacional do Brega foram atribuídos a cada uma das cidades por múltiplas instâncias, gerando debates nas redes sociais, nos corredores do Congresso e entre artistas e pesquisadores.
A disputa não é apenas formal. Ela coloca em evidência as diferentes histórias, trajetórias e formas como o brega se manifestou em cada região e levanta uma pergunta que muitos fãs do gênero fazem: afinal, qual é a verdadeira capital do brega no Brasil?
Raízes e influências distintas do brega em Belém e Recife
O brega paraense começou a se consolidar já nos anos 1950, com forte presença em festas populares e grande influência de ritmos caribenhos como merengue e calipso, além de elementos próprios como guitarrada e lambada. Ao longo das décadas seguintes, estilos como tecnobrega que incorpora música eletrônica e produções de aparelhagem criaram uma cena robusta de festas, DJs e eventos que alimentam a cultura local de forma contínua.
No Recife, o brega também tem raízes antigas, especialmente a partir dos anos 1970 e 1980, com artistas românticos que ganharam enorme popularidade nas periferias e nas rádios. O recifense Reginaldo Rossi, conhecido como o Rei do Brega, foi um dos primeiros a levar o gênero a reconhecimento nacional, influenciando gerações de músicos e ajudando a consolidar uma vertente local do ritmo que mais tarde se misturaria com outras influências e estilos, como o brega-funk.
É importante notar que, apesar de compartilharem a mesma nomenclatura geral, as formas e contextos do brega paraense e pernambucano são culturalmente distintos, resultando em expressões e histórias próprias em cada localidade.
Linha do tempo da polêmica e dos reconhecimentos oficiais
2021: Brega no Pará como patrimônio cultural
O brega já era reconhecido como patrimônio cultural e imaterial no estado do Pará, por meio da Lei Estadual 9.310, de 2021, o que fortaleceu institucionalmente o gênero em Belém e no estado como um todo, impulsionando o cenário local.
13 de maio de 2025: PL reconhece Recife como Capital Nacional do Brega
No Senado Federal, a Comissão de Educação e Cultura aprovou o projeto de lei (PL 2.521/2021) que reconhece Recife como Capital Nacional do Brega, em votação terminativa que permitiria a sanção presidencial do título. O relator, senador Humberto Costa (PT-PE), destacou a importância cultural e econômica do gênero para Pernambuco e para o Recife.
20 de maio de 2025: Recurso no Senado adia sanção do título
O senador Beto Faro, do Pará, apresentou recurso contra o projeto, argumentando que não havia consulta pública e que o processo deveria considerar o papel histórico do brega paraense, já patrimônio cultural do estado. Esse recurso levou o projeto para análise no Plenário do Senado, prolongando a discussão.
30 de maio de 2025: Belém recebe título de Capital Mundial do Brega
Belém ganhou outro título importante: Capital Mundial do Brega, concedido pela Organização das Nações Unidas para o Turismo (UNWTO – ONU Turismo), durante reunião do conselho executivo da entidade em Segóvia, Espanha. Esse reconhecimento internacional colocou Belém em destaque na imprensa e redes sociais como um polo global da cultura brega.
1º de outubro de 2025: Campanha oficial do Ministério do Turismo
No Dia Mundial da Música, o Ministério do Turismo lançou uma campanha institucional intitulada “O mundo é brega e Belém é a capital” gravada por Joelma, reforçando o título de capital mundial e aumentando a exposição da cidade na mídia nacional.
Outubro a novembro de 2025: Debate público e repercussão midiática
Reportagens de grandes veículos de comunicação destacaram a disputa entre as cidades, ouvindo especialistas, historiadores e artistas de ambas as regiões. Entre as questões levantadas estão origem histórica, diferenças estilísticas e o peso cultural que cada cidade tem na formação e disseminação do gênero.
Os principais argumentos de cada lado
O argumento de Belém:
Artistas e pesquisadores paraenses defendem que a cidade foi um dos primeiros grandes polos de desenvolvimento do brega no Brasil, incorporando dialetos musicais locais e criando subgêneros como o tecnobrega. Eles lembram que o ritmo é patrimônio cultural e imaterial do Pará desde 2021 e que o título de Capital Mundial do Brega reconhece essa longa história.
O argumento de Recife:
Do lado pernambucano, a defesa do título de Capital Nacional do Brega é baseada na importância cultural do gênero na região, especialmente por meio de nomes como Reginaldo Rossi e outros artistas que popularizaram o ritmo nacionalmente. O Recife também já declarou o movimento como patrimônio cultural imaterial do município antes da discussão em Brasília.
Onde a disputa encontra consenso
Mesmo com a rivalidade simbólica, muitos artistas e gestores culturais veem a disputa como positiva para o gênero, porque amplia a visibilidade do brega e cria oportunidades para eventos, pesquisas e celebrações que valorizem a música popular brasileira. Em mensagens compartilhadas nas redes sociais, prefeitos de ambas as cidades até brincaram com a ideia de “empate técnico”, destacando que “as duas podem ser capitais” do ritmo.
Essa conversa também escancarou algo mais profundo: o brega não é um único gênero homogêneo, mas uma família de ritmos que se manifesta de formas distintas em diferentes territórios, todos com histórias legítimas de criação, adaptação e popularização.
Conclusão
A polêmica entre Belém e Recife pela condição de capital do brega reflete não apenas disputas administrativas ou títulos oficiais, mas também um debate sobre identidade cultural, memória musical e pertencimento regional. Belém tem um papel histórico crucial no desenvolvimento do ritmo e ganhou reconhecimento mundial. Recife tem relevância nacional e uma cena intensa que fez do brega parte de sua identidade pública e cultural.
No fim das contas, a disputa fortalece a narrativa de que o brega é um patrimônio plural, nascido em diferentes contextos, e que sua riqueza cultural merece ser celebrada e preservada seja em Belém, no Recife ou em qualquer outro lugar onde o ritmo continue a viver no coração do público.



















